Resenha/Discussão: O Sol é Para Todos

Olá pessoal, tudo bem?

Pensar que essa resenha já estava programada para essa semana e na sexta-feira a autora Harper Lee faleceu. Então, fica aqui minha singela homenagem e resenha para essa autora fantástica.

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Contexto: Harper Lee nasceu em 1926, em uma cidadezinha do Alabama, nos  Estados Unidos. Segundo ela, foi essa própria cidadezinha Monroeville, seus habitantes e um caso ocorrido em uma cidade próxima que serviram de inspiração para o seu romance. O livro O Sol é Para Todos foi lançado em 1960 se tornando um sucesso imediato, ganhando o Prêmio Pulitzer de Literatura apenas um ano após sua publicação. É considerado um dos melhores romances do século XX, o que lhe rendeu a posição de clássico muito mais rápido do que qualquer outro romance na história. Hoje, O Sol é para Todos é um pilar da literatura americana e leitura obrigatória para todos.

O Espaço: A história acontece em um pequeno município no sul dos Estados Unidos, Maycomb, no Alabama. E se passa em 1930.

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A história: A família Finch é uma família tradicional de Maycomb, onde ser tradicional importa mais que qualquer coisa. A história é narrada por Scout, a filha de 9 anos de Atticus Finch, um “famoso”advogado da cidade. Scout narra os acontecimentos que precederam e sucederem um importante caso que aconteceu na cidade: um homem negro foi acusado de estuprar uma mulher branca e Atticus ficou responsável por defendê-lo, o que foi visto de maneira muito negativa pela sociedade conservadora e preconceituosa da região.

Personagens:

Scout é uma menina muito arteira e nada feminina. Por isso, ela ás vezes é vista com maus olhos pela sociedade. Ela tem um irmão mais velho, o Jem, quem ela admira e passa a maior parte do tempo junto. Por ser filha de um advogado, ela é bem madura e astuta para a sua idade. Ela começa a contar a história com 9/10 anos, narrando os acontecimentos a partir dos seus 5 anos de idade e no decorrer da história entendemos a importância que esses acontecimentos têm.

Atticus é talvez o personagem mais significativo do livro. Como pai viúvo e advogado, ele cria seus filhos de uma maneira bem direta, explicando e ensinando tudo que os meninos têm curiosidade em saber. Atticus é um personagem muito a frente de seu tempo e da mentalidade da maioria dos cidadãos de Maycomb. Ao contrário de todos os outros personagens, ele não julga as pessoas pela reputação delas, mas sim pelo o que elas são, o que tenta passar para os filhos constantemente.

Boo Radley é um homem que vive recluso em uma casa perto dos Finch. Ele é um grande mistério no livro. Scout e Jem desenvolvem certa obsessão em saber sobre e ver Boo, e suas tentativas frustradas só aumentam sua curiosidade. Com o tempo, mesmo sem vê-lo, as crianças desenvolvem um relacionamento amistoso com o homem, que vai fazer toda a diferença no decorrer da história.

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O julgamento: O ponto principal e maior divisor de águas da história é o julgamento de Tom Robinson. Tom é um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca Mayella Ewell, filha de Bob Ewell, e pertencente a uma das famílias mais problemáticas e carentes da região. No início, Scout e Jem se incomodam profundamente por o pai estar defendendo um homem negro, o que não é nada bem visto nos anos 30. Eles passam por vários problemas e ridicularizações por causa da atitude de seu pai, tanto na escola como de conhecidos. No entanto, após conversar com as crianças elas acabam aceitando de alguma forma e até indo clandestinamente assistir o julgamento e torcer pelo pai. Logo, eles percebem que apesar de os fatos mostrarem claramente que Tom é inocente, o fato de ele ser negro não permite que as pessoas enxerguem ou aceitem isto.

Desfecho: No decorrer da história, principalmente após o julgamento e seus desdobramentos, as crianças vão amadurecendo e compreendendo mais sobre tolerância, preconceito e justiça. Scout, particularmente, começa a enxergar como o racismo, o preconceito e o julgamento naquela sociedade fazem com que as pessoas fiquem cegas ou simplesmente não queiram ver, pois é muito mais fácil concordar com algo errado do que lutar pelo certo. No final do livro, percebemos um crescimento e uma maturidade na personagem que não estava ali no começo do livro, apesar de ela já ser um personagem mais maduro com pouca idade. Acompanhar esse crescimento e essa perda de inocência da personagem é uma das coisas mais fantásticas desse livro.

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Discussão: É muito interessante como a autora trabalhou a voz da personagem narradora que é uma criança. Apesar de enxergarmos o caráter infantil de sua fala, este não é exagerado e infantiloide. A sagacidade de Scout (saber ler antes de ir pra escola, por exemplo) e seu convívio com Atticus, ambos se fazem presentes em seu discurso. Esse discurso também vai se modificando de acordo com os acontecimentos do romance e foi uma das questões mais interessantes para mim; o discurso muito verossímil dessa personagem: inteligente, astuto, curioso, mas sem deixar de ser infantil.

O livro trata claramente da questão do preconceito, não só do preconceito racial, mas claramente todos na cidade tem certa reputação e são conhecidos por algo, seja pela família, por algo que faz, pelo jeito que vive, e são julgados constante e injustamente por isso.

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Outra questão interessante é o personagem de Atticus, que parece ser o único que não se encaixa nesse modo “preconceituoso” daquela sociedade e tenta influenciar os filhos a serem do mesmo modo. Ele sempre procura saber coisas das pessoas que ninguém sabe e assim quebra esse estigma. Com o tempo, seus próprios filhos vão aprendendo isso, e perdendo o preconceito que têm com os vizinhos, com os colegas de escola e até com o próprio pai.

O título original desse livro é um dos títulos mais interessantes e bonitos que eu já vi. “To kill a mockinbird”, ou matar um rouxinol, é a uma metáfora linda para remeter a perda da inocência e o senso de julgamento das pessoas do livro. Acho lindo.

Quem já leu esse livro ou quer ler deixa a sua opinião aqui nos comentários.

Beijos.

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Resenha/Discussão: Um conto de Natal

Olá pessoal, tudo bom?

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Eu estava meio em dúvida de como fazer uma resenha de clássicos. Primeiro, porque NÃO EXISTE SPOILER DE CLÁSSICOS. Estes livros foram lançados a pelo menos 50 anos, não tem como segurar spoilers. Eu quero exatamente discutir algumas questões dos livros com vocês, então não vou aqui ficar fingindo que ninguém sabe o final de Don Casmurro, ou pisando em ovos para não falar que Romeu e Julieta morrem no final. Então, se você não leu e por um milagre divino não sabe do final, não leia a discussão sobre o livro. Já que eu pretendo contar mais sobra a história, embora não absolutamente tudo, para então poder discutir um pouco sobre ela.

Contexto: Charles Dickens é um autor inglês do século XIX. Apesar do nome em português ser Um conto de Natal, a obra é uma novela não um conto (se quiserem um post especial com a diferenciação entre conto, novela e romance me avisem nos comentários). O nome em inglês traduzido na verdade seria “Uma canção de Natal”, e apesar de novelas não terem divisão em capítulos, apenas espaços, Dickens dividiu sua novela em Staves, ou seja, como em partes de uma canção.

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O espaço: A história se passa em Londres, aparentemente no mesmo período de sua escrita. O autor retrata a cidade sempre no Natal, com neve e muito frio.

A história: Ebenezer Scrooge odeia o Natal com todas as suas forças e vive uma vida de mesquinharia apesar de ter muito dinheiro.  Até que, em uma noite de véspera de Natal, ele recebe a visita do fantasma de seu antigo sócio já falecido. Jacob Marley era tão ganancioso e frio quanto Scrooge em vida, e agora está fadado a viver pela eternidade pagando pela sua ganância. Agora morto, ele é obrigado a carregar pesadas correntes amarradas a caixas registradoras. Convencido de seu destino, Marley tenta alertar seu ex-sócio dos perigos de ter uma vida egoísta e o alerta da visita de três fantasmas que vão o ajudar a enxergar sua realidade.

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Personagens:

Ebenezer Scrooge é um velho ranzinza, avarento e desalmando, dono de um escritório de contabilidade. Apesar de ter muito dinheiro, ele se nega a ajudar qualquer pessoa e odeia o Natal por afirmar que não há nada que se lucrar em tal feriado. Mesmo diante de várias pessoas com opinião contrária, ele não se deixa abalar pela felicidade e amabilidade alheia.

Bob Cratchit é o único funcionário de Scrooge. Apesar de ser muito mal tratado, por exemplo ter que trabalhar no frio congelante porque Scrooge se nega a gastar dinheiro em carvão, e ganhar pouco Bob ainda sim é fiel ao seu empregador. Ele é muito pobre e tem muitos filhos, inclusive o Pequeno Tim que é aleijado e de saúde muito fraca. Mesmo assim, é um homem alegre que fica contente em poder dividir o pouco que tem com a família na noite de Natal. Praticamente, o oposto do nosso personagem principal Scrooge.

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Os Fantasmas:

O Fantasma dos Natais Passados é o primeiro fantasma que visita Scrooge na véspera de Natal. Com uma aparência infantil e uma luz brilhante sobre a cabeça, esse fantasma representa a memória; e vai levar Scrooge a relembrar todos os Natais pelos quais ele já passou e como com o passar do tempo ele vai afastando todos a sua volta ao se tornar o homem que é hoje.

O Fantasma do Natal Presente é uma figura grandiosa e bem humorada que representa a caridade e generosidade do espírito do Natal. Ele é uma entidade que só vive no dia do Natal, e sua presença vai se esvaindo conforme passa o dia. Apesar de muitas análises o identificarem com Deus ou Jesus, para mim ele remete muito mais ao Papai Noel e ao que essa figura representa. Ele mostra a Scrooge como as pessoas que ele conhecem estão celebrando o Natal. Desde seu sobrinho que se diverte zombando dele, até seu empregado que mesmo na extrema pobreza encara a data com alegria.

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O Fantasma dos Natais Ainda por vir representa claramente a morte. Uma figura encapuzada e sombria que somente aponta para as coisas e não fala. Mostra a Scrooge como serão os Natais após sua morte. Como as pessoas saquearão seu cadáver e sua casa assim que ela falecer, como Bob Cratchit continuará na pobreza e seu filho Tim acabará morrendo, e como as únicas pessoas que sentirão algo com a sua morte são as que ficarão felizes por terem sua dívidas de contabilidade perdoadas.

Desfecho: Depois de viver lembranças e visões muito sombrias e horripilantes, Scrooge acorda em sua cama na manhã de Natal, apesar de os espíritos terem vindo no que parecia o decorrer de três dias. Impressionado por tudo que os fantasmas lhe mostraram, ele decide mudar suas atitudes e fazer o possível para que as terríveis coisas que o Fantasma dos Natais Ainda Por vi o mostrou não se realizem.

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Discussão: A História é claramente uma alegoria, com um simbolismo muito claro. Dickens faz uma crítica a alienação diante a situação que intensa pobreza em que a maioria das pessoas viviam na Inglaterra da época vitoriana. Dickens se usa de uma data festiva para lembrar as pessoas que demonstrar um pouco de caridade e fraternidade pode mudar a vida de uma pessoa drasticamente, meio que efeito borboleta, sabe? Muitas vezes, as pessoas estão muito ocupadas com os próprios problemas para perceber o que se passa a sua volta, e a novela mostra que assim que Scrooge passou a ver as pessoas por um outro ponto de vista, ele imediatamente se sentiu conectado emocionalmente com essas pessoas, o que o compelia a no final se tornar uma pessoa mais caridosa e benevolente.

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É interessante que Dickens descreve o Natal não como um feriado estritamente religioso, mas mais como vemos a data hoje: uma época de fartura, e troca de presentes e prosperidade. O que muita gente encara como a desvirtualização da data, Dickens mostra como uma época de espalhar a caridade e dividir fortunas, o que eu acho que é exatamente o propósito do Natal. Em geral, é uma história muito bonita de crescimento espiritual e muito simbólica também.

Vocês já leram Um conto de Natal? Caso tenha algo para contribuir com a discussão deixe nos comentários. Acho que é uma história muito inspiradora para começarmos o ano.

Beijos e até o próximo.

Discussão: Classificação indicativa para livros

Olá gente,

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Nesse mês começa no blog um projeto de Blogagem Coletiva que eu estou participando junto com essas meninas queridas:

Ana e Bia do blog Na Sua Estante

Luma do blog Antes das Cinco

Beta do blog Livro com Pão de Queijo

Thayenne do blog Entre óculos e livros

Maria Fernanda do blog Photo and books

A gente apelidou o projeto de Divã Literário, e cada mês a gente vai escolher um tema para sentar no nosso Divã e discutir. Então eu sempre vou deixar o link das meninas para vocês passarem lá pra ver a opinião delas também, né? E depois comentar a sua opinião.

O tema escolhido para esse mês foi: Classificação indicativa para livros.

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Eu pensei e pensei e pensei sobre esse assunto e para mim foi difícil formar uma opinião. Acho que existem argumentos válidos de ambos os lados, e aqui vão os meus.

Ao mesmo tempo que eu acho que nem todo o livro deve ser lido por todo o tipo de pessoa de qualquer idade, eu também sou o produto da minha formação que diz que a literatura tem que ser universal, ou seja, para todos. Sei que isso é meio complicado. Mas, no final das contas, eu sou contra que haja uma classificação indicativa em livros, como há em filmes, por exemplo. Não sei nem se sou a favor de classificações como: infanto-juvenil, YA, New Adult, “Old Adult” e sei lá mais o quê. E vou explicar o porquê.

Pra mim essas classificações são puro marketing, e um marketing falho. Afinal, Harry Potter é infanto-juvenil, certo? Foi feito para esse público, crianças e jovens, certo? Será que essa classificação não restringe um pouco a obra? Meu pai adora Harry Potter por causa da fama que a série tem, mas duvido que ele leria um livro classificado de infanto-juvenil. Talvez, eu também não leria A Seleção se viesse escrito “recomendado para 12 anos”, ou algo do tipo.

Muita gente acha que deveria vir na contra-capa a indicação, mas sei lá, eu acho que isso restringe o livro e acho que os livros são um meio que deveria ser mais liberal que o cinema. Até porque no cinema, se tem uma cena de morte É uma cena de morte. Aquilo tem de ser mostrado de alguma forma e na maioria das vezes VER uma cena causa muito mais impacto do que LER uma descrição de cena (na maioria das vezes, tá? Porque existem muitas descrições tensas também, vide Suicidas).

 A Thay do Entre óculos e livros lançou uma questão no grupo que eu achei interessante: “Qual seria a idade “certa” para se ler determinados livros? Existe uma idade certa ou vai da maturidade da pessoa?” Eu gosto de pensar no universo da literatura como un universo livre, que dá liberdade de escolha para a pessoa ler o que quisr e, ás vezes, até se deparar com algo dentro de um livro que ela não leria se soubesse que estivesse ali, isso  abre a nossa mente. Quem sabe essa pessoa até não acabe gostando, não é mesmo? Ou descobrindo algo novo. 

Não acho que existem temas impróprios, mas diferente maneiras se abordarem certos temas. Os livros de YA contemporâneo mostram isso. Por exemplo, “As Vantagens de Ser Invisível” trata de abuso sexual de menores e talvez até estupro, mas é de uma maneira tão sutil que nem parece que tem. Mas se fossem colocar uma classificação, ela teria de ser para maiores de 18 anos, não é? E isso não acabaria com o propósito do livro, já que ele é YA? E ai, quando o tema “estupro” é para maiores de 18 anos e quando não é? Complicado, né? Porque a indicação não presta atenção no livro, mas no que tem no livro. Quantas vezes você assistiu um filme de indicação 16 anos e pensou: “nossa, mas não tem nada demais nesse filme”? Acho que essa classificação em uma leitura, que é muito mais subjetiva, seria um pouquinho complicada.

Pra mim a forma como você quer ler ou não sobre esses temas é escolha sua. Não acho que ler sobre algo “impróprio” vai matar alguém e quem se preocupa tanto com isso, ou os pais que se preocupam com isso podem com certeza prestar atenção antes de ler ou comprar um livro. Existem mil resenhas por ai, inclusive no meu blog e no blog das minhas amigas que eu citei lá em cima e muitas vezes a própria capa do livro já dirige o público. Pra mim a adequação depende da maturidade, mas não gosto da ideia de um livro ser restrito ou direcionado a uma certa idade ou a um certo público.

Enfim, eu sei que muita gente vai discordar de mim, mas eu quero ouvir as diferentes opiniões. E não deixem de passar nos outros blogs para ver a opinião das meninas também.

Beijos e até o próximo.